América Latina: memória e vigília faz parte da coluna MARIPOSA, de Nilma Lacerda.
Extra é o que se chama de jornal popular. Circula no Rio de Janeiro, tem cerca de 14 páginas, custa menos da metade do preço do jornal da classe média. Boa parte de suas matérias costuma versar sobre crimes comuns e esportes, com atenção bem pontual à política. No dia 25 de março deste ano de 2024, a primeira página apresentou manchete única. APÓS 6 ANOS E 10 DIAS, UMA RESPOSTA – pôde ser lido em letras brancas sobre fundo azul, na alusão à imagem da placa “Rua Marielle Franco”. Logo abaixo, em letras menores, a notícia:
“Quem mandou matar Marielle Franco, segundo a Polícia Federal, foram os irmãos Chiquinho Brazão, deputado federal, e Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, que contaram com a proteção de Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil do Rio. Os três estão presos.”

Seguia-se uma linha de memória: “A vereadora e motorista Anderson Gomes foram mortos em 14 de março de 2018”.
O crime mobilizou a cidade. Marielle era uma ativista dos direitos civis, especialmente das pessoas negras, moradoras de comunidades, de onde ela mesma provinha. Na Maré, conglomerado de pequenos bairros, favelas e microbairros, onde vivem cerca de 130.000 pessoas, todo esse tempo não deixou de haver grafites: Marielle vive, Luto/Luta, Quem mandou matar Marielle?, lidos diariamente por milhares de pessoas, de vez que parte desse território é atravessada por uma via expressa, que liga a cidade de Norte a Sul. Memória e a luta lá estão, como acontece no monumento a Jaime Garzón Forero, em Bogotá. Registrei em páginas de Deus não tem nada com isso – Diário de navegação da palavra escrita na América Latina, as visitas feitas à estátua do colombiano assassinado em condições e por razões semelhantes às que tiraram a vida da vereadora Marielle. Como é meu propósito, ao copiar escritas de rua não realizo intervenção de qualquer ordem.
Os cartazes na memória, a cada sinal luminoso: DESPLAZADO/DESPLAZADA. Após a primeira visita à cidade em 2000, voltei a Bogotá em 2007 e o olhar foi para as bibliotecas públicas, seus usuários, suas usuárias, o parque El Tunal, ao pé da maior favela da cidade, formada em grande parte pelos desplazados. Neste ano de 2009, descobri na carrera 40 com avenida Esperanza, no dia do décimo aniversário de sua morte, a estátua e a história de Jaime Garzón Forero.
Bogotá, 13 de agosto de 2009.
A Jaime Garzon F.
1960-1999
Porque definitivamente
A memória está
Esquecida e os gritos
Silenciados.
Os espaços são
De ninguém e os ninguéns
Já estão
MORTOS
Jaime Garzón 10
anos
IMPUNES
A letra de Construção, de Chico Buarque, em português e em espanhol, escrita com pincel Pilot em uma folha de papel 40 kg, está presa com durex ao pedestal de pedra. Na mão direita da estátua, mais elevada que a esquerda, está posta a bandeira da Colômbia. Na outra, um ramo de rosas vermelhas, um texto tremulando em pequeno mastro improvisado. Outro texto manuscrito expõe indignação e expectativa de justiça.
O desespero político
Por permanecer no poder para fortalecer a classe empresarial e usá-lo para inércia mediocridade e frustração do povo, sereis julgados pela corte divina.
Manuel …(irrecuperável)@hotmail.com
Dez tijolos pintados de branco, uma folha de papel colada e uma rosa vermelha sobre cada um deles:
JAIME GARZÓN FORERO
ADVOGADO, JORNALISTA E HUMORISTA
Data: ago. 13/1999
Lugar: Quinta Paredes – Bogotá
ASSASSINADO
Enquanto tomo essas notas, um homem e uma mulher se acercam, observam. Começo a conversar com eles. O homem é arredio, a mulher se mostra loquaz, vai me dizendo: “Quando Deus coloca alguém que pode fazer alguma coisa, o império não permite, o império e seus aliados.” Fala das suspeitas sobre os mandantes do crime, que recaem sobre o próprio presidente, ou gente chegada a ele. Descreve, com paixão, o enterro de Garzón: “Milhares, milhões de pessoas em seu velório, na Praça Bolívar até o espaço da ponte da rua 26 com Setúbal. E seu grande amigo Andrés Pastrana, que era presidente! Bandeiras brancas, de paz, muitas, muitas” – termina.
No ano seguinte, Garzón Forero e eu nos encontramos de novo.
Bogotá, 19 a 22 de agosto de 2010.
Venho participar da Feira Internacional do Livro de Bogotá. Volto a visitar esta estátua e a copiar os recados de resistência, escritos em papéis variados e presos à pedra com fita adesiva.
Para sempre Jaime
seguirás para sempre
no coração mas não
nos esqueças sempre mas
não farás calar tua voz não
nos esqueças obrigado Raúl
Jaime Garzon
11 anos 1999
2010
Não te esquecemos
sempre presente
Presumíveis responsáveis: Paramilitares AUC
Raúl, cujo nome de autor não se separa do texto por ele escrito, mescla homenagem, agradecimento e súplica, em busca de continuidade na circulação da voz dos oprimidos. Jaime não pode se esquecer do povo, não pode se esquecer deles que ali vêm exercer a devida vigilância cívica. O último bilhete aponta um caminho para a investigação do assassinato: os paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia.
Outras vezes fui a Bogotá, espero ir ainda algumas outras. Sempre visitando Jaime Garzón Forero, perguntando, e aí? Como vão as coisas? “Com muito custo, as coisas mudam de lugar”, deverá me dizer. Também aqui, no Rio de Janeiro, direi, as coisas lentamente mudam, embora pareçam não sair do lugar e às vezes não saiam mesmo, ou se tenha bem engrenada a marcha à ré. Estampar em primeira página a notícia pela qual esperava boa parte do povo brasileiro é fruto de um governo democrático e de um jornalismo honesto. A consciência da imprensa é fundamental, e em que pesem os interesses nem sempre legítimos que qualquer rede jornalística apresente, é necessário que os leitores cobrem compromisso ético com a cobertura e apuração dos fatos. A sociedade sabe que não pode descansar. E não descansou, com mais de 30.000 placas RUA MARIELLE FRANCO [1], distribuídas pela cidade em vários espaços públicos e privados, as escritas de rua já mencionadas e numerosos atos cobrando justiça.

Lá e aqui, a sociedade civil não teve descanso em cobrar das autoridades a responsabilidade pela investigação devida. Agora é continuar lutando para que a justiça se realize de forma plena. Vale lembrar a informação veiculada pelo LatAm Journalism Review, em matéria de Silvia Higuera, 13 de agosto de 2020:
“Até o momento, apenas duas condenações foram dadas pelo crime: a primeira contra o ex-chefe paramilitar Carlos Castaño e outra contra o ex-vice-diretor do agora extinto departamento de inteligência do país (DAS), José Miguel Narváez. Castaño nunca cumpriu a pena que recebeu em 10 de março de 2004 porque morreu. Narváez foi condenado a 30 anos de prisão em 13 de agosto de 2018, mas em 19 de julho de 2019 sua pena foi reduzida para 26 anos”.
No entanto:
[…] em 28 de setembro de 2016, a Procuradoria Geral da República declarou o homicídio um crime contra a humanidade. Isso permitiu que quando, 20 anos depois de cometido, o crime não prescrevesse, ou seja, o tempo para que sua investigação fosse encerrada conforme estabelece a legislação colombiana. [2]
Nilma Lacerda é doutora em Letras, com pós-doutorado em História Cultural. Presente na publicação da Casa Philos, 37 escritoras neolatinas contemporâneas, escreve ficção que adultos leem, ficção que crianças e jovens também podem ler, ensaios e obras de cunho acadêmico. Foi professora da Universidade Federal Fluminense e, em sua carreira literária, tem recebido vários prêmios e distinções, dentre os quais o Prêmio Jabuti, o prêmio Rio e o selo White Ravens. Com obras publicadas na América Latina, é também tradutora e colaboradora de periódicos literários. Acesse o site oficial nilmalacerda.com.br e siga a colunista no instagram e facebook.